O programa R4E-Reskilling for Employment já é conhecido por muitos. Qual é a grande novidade?
Há, de facto, uma mudança. O Reskilling for Employment nasceu da plataforma internacional ERT-European Round Table for Industries, na qual se reúnem as 60 maiores indústrias da Europa. Mas chegou-se à conclusão de que estávamos perante uma transformação maior do que as anteriores e, se nada fosse feito, muita gente ia ficar para trás, ou seja, no desemprego. Portanto, criou-se uma iniciativa de requalificação que foi pilotada em três países, inicialmente: Portugal, Espanha e Suécia.
A grande novidade é que a New Career Network é uma plataforma que tende a juntar num só sítio todos estes públicos-alvo: as pessoas que estão a querer requalificar-se; os cursos de requalificação de várias entidades, como o Pro-Mov, a Academia de Código, a Escola 42, ou a TechOf; e as vagas de emprego.
Mas nós não estamos a colocar todos os cursos de requalificação que encontramos. Estamos a ter uma curadoria dos cursos, olhando a dois critérios: o número de horas, portanto, cursos com mais de 240 horas, para garantir que estamos a falar de uma requalificação “de fio a pavio” e, por outro lado, estamos a pedir a todas as entidades formadoras que partilhem connosco as taxas de empregabilidade dos seus cursos.
Para as empresas, também é espetacular, porque a empresa, ao colocar o seu anúncio, consegue ver logo quem são os potenciais candidatos, quem está na plataforma que responde às competências de que precisam, reduzindo, assim, o tempo de análise de currículos, porque matematicamente, e através da
Inteligência Artificial, conseguem saber exatamente quais são os perfis mais adequados a cada uma das funções disponíveis.

Mas a plataforma não é só para desempregados, certo?
Não, é para reskilling. A requalificação tem de ser vista de forma cada vez mais genérica, ou seja, todos nós vamos precisar de nos requalificar. Naturalmente, há pessoas que estão desempregadas e que merecem o nosso foco, mas todos nós, a tempo, vamos precisar de uma requalificação. Longe vai o tempo em que nós tínhamos o primeiro momento de formação e depois íamos trabalhar e tínhamos aquele emprego para a vida, para o qual já não precisávamos de nos formar mais.
Hoje, a aprendizagem ao longo da vida exige-nos exatamente isso. A plataforma e estes cursos estão abertos para qualquer pessoa que queira por eles envergar. Tentamos ter a maior oferta possível e temos cursos em diversos horários e com diferentes custos, mas tentamos ir ao encontro das necessidades.
Como referiu, os cursos da plataforma são selecionados segundo dois critérios: o número de horas e a taxa de empregabilidade. Quem é que vai verificar isto?
Os cursos da Pro-Mov, por exemplo, têm todos à volta de 1.000 horas, pelo que estamos a falar de cursos efetivamente grandes, mas há alguns cursos mais pequenos e, portanto, quisemos criar esse critério. Relativamente à taxa de empregabilidade, nós estamos a pedir um método de cálculo a cada um dos parceiros.
No caso do Pro-Mov, a análise desta taxa é feita pelo IEFP que, juntamente com a Segurança Social, consegue saber quem são as pessoas que estão, ou não, a trabalhar. No caso de outras entidades que não têm acesso, obviamente, a esse tipo de dados, é muito feito por inquérito aos antigos alunos de cada uma das turmas. Por outro lado, há entidades que seguem o aluno e dão todo o apoio necessário até ele estar, de facto, a trabalhar.
Estamos efetivamente a recolher estes dados, por sabermos que é algo disruptivo no mercado. Até temos alguma dificuldade em ter uma oferta mais alargada, exatamente porque as entidades formadoras se focam muito em critérios de satisfação e menos de impacto. Contudo, neste momento, estamos a olhar para estes fatores. Não significa que, num futuro, não possamos olhar para outros, como a satisfação do formando. Mas, por agora, queremos dar credibilidade ao ecossistema.

Como são selecionadas as empresas e as formações disponíveis na plataforma?
Nós temos uma análise de mercado e sabemos quais são as áreas que mais importam para o futuro. Por isso, não queremos uma formação para uma profissão que vai acabar para o ano. Este é logo o primeiro critério e veio de trás: o R4E chegou pelo Pro-Mov que, quando lançou os seus cursos, teve como foco as necessidades das empresas, as competências de futuro, mesmo que sejam em setores que podemos descartar à partida, como a agricultura – temos muitas profissões de futuro dentro desses setores.
Por outro lado, a taxa de empregabilidade diz-nos que o mercado continua a querer estas pessoas e, por isso, esse continua a ser um fator importante para garantir não só que é um setor relevante, mas que o curso tem qualidade.
E como é que se vão candidatar as pessoas?
Qualquer pessoa entra na plataforma, coloca os seus dados, as suas competências e define a nova carreira que quer ter. A partir daí, a plataforma indica quais são os cursos que pode fazer. Ao clicar no curso que pretende, o utilizador é encaminhado para o site desse mesmo curso. Ou seja, o que nós queremos fazer aqui é um ecossistema que liga estas partes.
Depois, a relação específica entre o formando e a entidade formadora continua a ser uma relação direta. Nós não queremos ser uma “areia na engrenagem”. Queremos dar visibilidade sobre aquilo que de bom se faz em qualificação.
O mesmo acontece com o emprego. Nós queremos disponibilizar vagas e disponibilizar currículos, mas a relação é direta entre empresas e candidatos. Nós não vamos estar no meio desta relação, porque acreditamos que não é aí que acrescentamos valor. Onde acrescentamos valor é ao dar visibilidade e colocar este ecossistema a trabalhar em conjunto.

O Pro-Mov tinha clusters por área. Estas empresas continuam no projeto?
São atividades em paralelo. O Pro-Mov é um programa de requalificação que foi desenhado pelas empresas, com o IEFP também, obviamente, mas o que aconteceu foi que definimos os setores de atividade onde era necessária a formação, onde as empresas sentiam que a formação existente não respondia às suas necessidades e, portanto, esses clusters faziam sentido.
Havia um conjunto de empresas/laboratórios que definiam quais eram as profissões de que sentiam falta no mercado e definiam o percurso formativo a partir do qual se lançavam os cursos. Uma empresa que estivesse no Pro-Mov era uma empresa que queria participar no próprio desenho da formação. Recebia o aluno para a formação prática em contexto de trabalho, se assim o quisesse, ficava com ele durante três meses e, depois, decidia se o contratava ou não. Na New Career Network, são vagas de emprego.
Qual é o papel da Sonae?
A Sonae tem tido um papel bastante relevante, porque o R4E chegou a Portugal, precisamente, pela Sonae, pela SAP e pela Nestlé. Nós temos uma equipa a tempo inteiro a fazer a gestão do Pro-Mov, obviamente, com o apoio dos parceiros. Paralelamente, a New Career Network está a ser lançada em Portugal pela Sonae e em Espanha pela Telefónica, neste esforço muito grande de requalificar a Europa.
O nosso grande objetivo é que esta plataforma deixe de ser uma plataforma de Portugal e Espanha, mas sim que vá abranger, obviamente, os outros países, tal como fizemos com o Pro-Mov. O problema da requalificação não é um problema de Portugal, é um problema da Europa.
É possível a plataforma sugerir mais do que um percurso de formação?
Sim. Eu posso identificar uma área e a plataforma vai apresentar-me todos os dados e percursos possíveis, ou eu posso pesquisar só em termos da oferta formativa, ainda sem dizer o que é que quero fazer, porque me posso inspirar com a oferta formativa que está presente na plataforma. Não fazemos orientação vocacional, mas mostramos as hipóteses e tentamos orientar da melhor forma, evidenciando a formação necessária para se atingir determinado patamar.
Qual é o regime das aulas?
Temos uma oferta formativa diversificada e, portanto, temos cursos que são presenciais, outros que são remotos, porque diferentes pessoas vão ter diferentes necessidades, estão em diferentes contextos, em diferentes momentos de vida e podem querer ir fazendo a sua atualização de competências de formas diferentes também, em função do seu contexto de trabalho do momento.
Quanto mais entidades formadoras nós conseguirmos atingir para termos uma maior oferta, melhor vamos servir as pessoas que precisam de ser requalificadas. A partir das pessoas já graduadas, mais perfis teremos para apresentar às empresas que também precisam desta qualidade.

